O Horror Aberto – As Dificuldades do Medo
Posted on 01. mar, 2010 by Jagunco in Narrativa
Velas, livros de feitiçaria, rosas negras, símbolos malignos e etc. Quem se assusta com o já-comum?
Minha reflexão desta segunda-feira tem relação com alguns apelos e contradições das histórias recentes. Como lidar com o fato de que está ficando muito difícil criar contos que despertem fobos?
Não é novidade que histórias de terror (contadas em torno da fogueira ou em volta da mesa) mudam com o tempo. Novas formas de contá-las, de criar métodos de fazer os ouvintes se eriçarem, esperarem o desfecho certo tem sido pensadas e repensadas por diretores de cinema, escritores e narradores. Algumas fogem do clichê, outras insistem neles. De todo modo, o que separa o assustador do ridículo é sempre o ar de cuidado que todos os envolvidos tem no momento. Seja o que conta, seja o que vive ou escuta.
Esqueçamos o poder do horror direto. Vamos pra histórias sem compromisso.
Elas estão lá, brincando com sustos e diálogos engraçados. Ao que parece, o entretenimento moderno dos nossos dias gosta de flertar com lados mais distantes da emoção dos expectadores-leitores. Filmes como A Múmia e a série de Indiana Jones ou mesmo Harry Potter, passeiam pelo horizonte do medo com um ar jovial. Segredos do passado, tipos clássicos de monstros ou aparições, o suspense-com-poeira dos contos arcanescos são todos elementos usados dentro do espaço da brincadeira. É quase como uma piada antecipada: jogar com o clichê, sabendo que aquilo é um clichê, é um primeiro passo no trabalho de se inventar histórias leves, com aspectos pesados.
A ficção científica, seja na produção de novos escritos, seja na releitura de tomos antigos – como Asimov ou Júlio Verne – aprendeu a negociar suas seriedades. É fácil ver isso em adaptações ou continuidades cinematográficas como Eu, Robô ou Perdidos no Espaço.
Quem disse que o terror precisa ser diferente? Ainda que seja possível contar histórias apavorantes em uma mesa em que todos estejam dispostos a “entrar no clima”, não é difícil imaginar o quanto é complicado manter a seriedade e o ar pesado nos ouvintes de um drama fictício. Sou da opinião de que a imersão emocional não acontece longe de incentivos materiais – por isso o medo é mais fácil nas salas profundas do cinema, onde o escuro é de verdade. Mas, mesmo nelas, com tantos celulares e e com a crescente falta de medo do laterninha, isso está sumindo. Em outras palavras, acredito que contar histórias assustadoras, sérias ou dramáticas exige um cuidado grande com o ambiente – coisa que nem sempre é possível e que cada vez mais se torna raro ou custoso.
Sendo assim, defendo o exercício de ceder. Defendo que, especialmente nos jogos de RPG, mas também na produção de contos ou romances, o horror seja tratado de uma maneira intercalada. Não acho que valha mais a pena construir um ambiente sinistro e obscuro do que dotar arquétipos vilanescos de algum senso de humor. Prefiro as piadas corriqueiras de Sam e Dean do que a tentativa pateticamente severa de se recriar O Lobisomem. Drácula de Bram Stocker ainda é um de meus filmes prediletos. Ainda assim, as peripécias surreais de Caçadores de Vampiras Lésbicas mostram que a capacidade de fazer piada com qualquer coisa tem colocado um novo desafio em contar histórias sérias de desespero.
O primeiro desses desafios é o riso diante do duplamente significativo aspecto do vilão – um sujeito vestido de vermelho e negro com garras tem tanto o potencial de ser o Mestre dos Pesadelos com o de ser um flamenguista gozador. Mas o mais complicado deles é entender e administrar a vontade alheia de se comprometer com os personagens. O mais difícil de uma história assim é criar, no campo do fictício, um apego real por seres irreais. Em resumo, no mundo atual das comédias satíricas e do cinismo absoluto, mesmo diante do absurdo, o maior truque é convencer alguém de que há perdas que farão diferença para um personagem. Pouco importa se Carrie é uma paranormal adolescente com espinhas. Se ela pode matar um coadjuvante que você gosta, você não vai ficar só rindo… vai?
Apontamentos até vagos. Entre a leitura de Crowley e uma passada no Capinaremos, é difícil decidir o clima literário do mundo. Mas o que você me diz disso?


5 Comments
Arquimago
03. mar, 2010
Concordo que hoje em dia é complicado e mesmo com todos querendo isso as vezes não sai, mas nesse caso é melhor mudar para algo mais leve como você disse e ainda sim termos uma boa historia e diversão!
Afinal um pouco de susto controlado e que você pode parar na hora que quiser depois pode até ser divertido de se lembrar!
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Jagunço Reply:
março 4th, 2010 at 0:57
@Arquimago, Tive boas sessões neste estilo. Renderam bem mais do que qualquer tentativa de “teatro amandor” mais severo. Mas alguns grupos tem mais sorte, certo?
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BIG
05. mar, 2010
Um blog de RPG em Fortaleza?
MASSA!
Só registrando a passagem, amigo. Depois lerei com mais vagar!
Bonito visual!
BIG postou recentemente: Feliz dia do Mestre!
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Jagunco Reply:
março 5th, 2010 at 19:54
Salve lá, companheiro!
Agradeço a visita e a força. Apareça mais, que o plano cearense de conquista do mundo continua.
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Silas (S Crash)
05. mar, 2010
> Aos mestres, um aviso atrasado
Feliz dia do Mestre de RPG, foi ontem mas ainda vale
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