Histórias Medievas “de Verdade” – Bernard Cornwell + RPG

Histórias Medievas “de Verdade” – Bernard Cornwell + RPG

Posted on 31. jan, 2010 by Jagunco in Literatura, Narrativa

A literatura de Bernard Cornwell tem um sabor muito particular – tanto que muito tem se falado dela. Sempre há quem não curta, aqueles que descobrem logo seu padrão e se cansem, etc. Todos, até Tolkien – especialmente Tolkien… – se tornam chatos se consumidos como a única verdade narrativa.
Mas, se observarmos bem, é justamente o padrão da literatura de Cornwell que dá um gosto especial a seus livros. O estilo do escritor inglês tem um poder curioso, próprio de livros amplamente adorados: ele escreve o que o queremos ler e se aprimora ao longo de grandes textos. Talvez por isso – além da grana… – ele se dedique a escrever séries. Porque pode muito bem ter percebido a mágica de trabalhar com o leitor durante longas “campanhas”.

Não é só isso, claro. A ficção histórica de Cornwell mistura verdade e tom épico em uma medida que, acredito, atraia públicos apartados. De amantes de História a leitores de fábulas, temos uma zona de interseção muitíssimo bem aproveitada pelo escritor. Usando lendas do imaginário ocidental e acrescentando a elas os (ironicamente) quase desconhecidos detalhes da história acadêmica, o autor britânico cria sagas memoráveis. Seus personagens – principalmente seus coadjuvantes -  são trabalhados no limite do caricato e do humano e isso é o coração de tudo. Temos aqui, nessa semi-picaretagem de literatura quase industrial – um amontoado de figuras divertidas, comoventes, extremamente apropriadas ao cenário onde suas histórias se desenrolam.

Não se trata de ignorar o fato de que o autor usa alguns anacronismos – como ao tentar imprimir sentimentos bastantes “modernos” a protagonistas da alta ou baixa “Idade Média”. Mas isso não tira o brilho da coisa: Cornwell, ao que parece, aprendeu a formatar a maior parte de suas licenças poéticas com muita sinceridade – registrando em seus apêndices, nos finais dos romances, as liberdades e dúvidas que compõem suas histíorias.

Se há um ponto realmente negativo em se ler este escritor é o espaço temático relativamente curto de sua ficção: basicamente a Era Medieval  ou o universo histórico ligado a Inglaterra. Mas mesmo isso, se me permitem, tem uma explicação que satisfaz: é mais divertido e eficiente falar sobre o que sabemos. O que, no caso, é uma verdade perfeitamente razoável.

E o que fica para os Contadores de História?

Alguns pontos-dicas nascem das sagas de Cornwell. Reflexões sobre como contar algo em períodos onde o modo de vida tinha marcas de violência, vassalagem e era constituido, basicamente, de imundices (materiais ou simbólicas). É aqui o ponto que liga a narrativa de Cornwell a tantas faces da apresentação de alguns RPGs de fantasia. Entre eles, vejam só: a Quarta Edição de Dungeons & Dragons (achou que eu ia que falar de quê, cara pálida?).

As novas marcas do mundo fantástico de D&D estão próximas ao que Cornwell retira do medievalismo: um mundo vasto, desconhecido, filho de um passado glorioso, mas perdido. Uma terra terrivelmente decadente onde poder (monstros, males, espíritos ou senhores) governam a vida e limitam os caminhos. Essa relação me faz pensar, portanto, na lista de conexões entre uma fantasia “medieval” rpgística e uma leitura literária de um passado tão questionado. É quase como se Bernard Cornwell sugerisse ao mestre de D&D (estou pouco modesto hoje…) o seguinte:

  1. Suje as coisas. Uma boa narrativa vem do que há de podre no cenário. As pessoas mijam, cagam, trepam e falam dessa forma. Palavrões podem ser coisas desaconselhadas para o bom comportamento em público, mas em uma narrativa eles dão vida a um aspecto quase sempre esquecido do mundo (e se você tem menos de catorze anos nem deveria estar jogando isso, filho…)
  2. A guerra não é um bom lugar. Pode haver glória na luta e personagens guerreiros lembrarão e viverão por ela. Mas, ainda assim, eles saberão a dura trilha que escolheram. As pessoas morrem ou são aleijadas no combate, todos os dias. E isso causa um medo ou uma locura em quem escolhe o caminho da batalha.
  3. As pessoas mais estranhas, filhas do mundo apodrecido, podem ser grandes coadjuvantes. O mago curvado, o médico judeu, o marinheiro de boca suja e o rei erudito-em-meio-a-crise são parte do elenco cornwelliano e lembram como o incomum e o reles podem incrementar um cenário. Pense nos carcereiros, nos soldados desertores, nas prostitutas bêbadas e seu mundo pode ficar mais “palpável”.
  4. Um conselho velho, mas que o autor deixa com inovação: as cenas têm cheiro. Não apenas o cheiro comum, mas o cheiro que se relaciona ao evento. Cornwell, felizmente, não se vale de metáforas ou comparações  olfativas com muita facilidade, mas faz do cheiro um participante da descrição, sempre apelando para aquilo que choca, que vai além da limpeza e lembra ao personagem onde ele está.
  5. Cuide para que suas histórias tenha vilões realmente odiosos. De preferência, mais de um. Não crie um oponente único, que centre os desafetos e as raivas dos protagonistas. Ao invés disso, prefira vários inimigos que, no devido tempo, possam ser vencidos – apenas para dar lugar a um mais maligno e mais terrível.

É isso. A idéia de que literatura afeta nossa forma de ver narrativa – em RPG – é bem defendida. Mas, convém pensar sempre em exemplos práticos, certo? Tentei isso aqui, um pouco. Volto pra tentar de novo.

Saudações ajagunçadas.

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16 Comments

Fernando del Angeles

31. jan, 2010

Eu adoro Cornwell, já li as Crônicas de artur, A busca do Graal, Stonehenge, o Condenado e estou à espra do próximo das crônicas saxônicas. Estou tomando coragem para correr atrás de Sharpe, são muitos livros e acaba dando preguiça.
Mas é isso mesmo que você falou, Cornwell é o mestre da ficção historica, todos os fatos narrados por ele são reais, o que ele acrescenta é apenas a participação de seus personagens, personagens estes muito carismáticos como Derfel, Thomas de hokton e o mais carismático, apesar de ser secundário, Ragnar.
Além de Cornwell, aconselho que leiam Conn Igulden (o Imperador) e Wilbur Smith (aves de rapina).

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Jagunco Reply:

@Fernando del Angeles,
Não gostei da primeira leitura de O Imperador (Os Portões de Roma”). Mas vou dar uma nova chance ao Igulden. :)
Apareça, Fernando.

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Fernando del Angeles Reply:

@Jagunco, o portoes de roma acho que é o mais fraco dos 4 (pelo menos dos tres primeiros ja que ainda estou no 3°), mas a morte dos reis é muito bom…

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Jagunco Reply:

@Fernando del Angeles,
Olha que vou arriscar! X)

O Goblin

01. fev, 2010

Meu unico problema com Cornwell é o fato de nunca ter tido a chance de ler todos os livros dele. Um problema que estou tentando remediar aos poucos.

As “dicas” dadas por Cornwell/Jagunço são realmente dicas que eu venho seguindo em todos os meus jogos e que vêm dando muito certo. Um cenario sujo é um cenario de VERDADE, as tragedias da batalha são tragedias reais e podem acontecer a todos, porque nao aos herois?

Temos inclusive um jogador em nossa mesa que o personagem possui um gancho na mão esquerdo, fruto de uma falha critica quando tentava segurar a espada do inimigo com as maos nuas (Eu disse que isso só funciona em filmes de samurai, ele nao acreditou).
O Goblin postou recentemente: Exalted – Parte 1

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Jagunco Reply:

@O Goblin,

Também temos um eladrin maneta do lado de cá! hahahaha… É o preço da vida em Cornwell. :D

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Fernando del Angeles

01. fev, 2010

cara, lê mesmo os livros dele…são todos bons… to tomando coragem para comçear a comprar a saga de sharpe
Fernando del Angeles postou recentemente: A CRIATURA: Goblins

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Arquimago

01. fev, 2010

Nunca li esse autor. Mas suas dicas são por demias interessantes e com outra adaptação podem ser usadas em qualquer cenário.

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Jagunco Reply:

@Arquimago,

Acho sim que ele dá boas dicas narrativas.
E, se tiver oportunidade, procure ler. “O Rei do Inverno” foi um ótimo livro, abrindo as portas para as sagas que Cornwell constrói. Mas sou fã do estilo, então sou suspeito. >D

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D.Darkangellus

02. fev, 2010

E eu pensando que cegar o olho de um PJ era grande coisa…tsc
D.Darkangellus postou recentemente: Unhallowed Metropolis: RPG Obscuro, de horror, chique, neo-vitoriano e com máscara de gas!

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D.Darkangellus

02. fev, 2010

Ah, me esqueci, mas Bernard Cornwell é considerado por muitos rpgistas como dentre as melhores fontes de inspiração para campanhas medievais.
E é uma baita verdade!

Abrçs e Bons Jogos!
D.Darkangellus postou recentemente: Unhallowed Metropolis: RPG Obscuro, de horror, chique, neo-vitoriano e com máscara de gas!

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Jagunco Reply:

@D.Darkangellus, Bem vindo de volta, companheiro!
Rapaz, como eu disse antes, sempre tem quem não goste… Mas não dá pra ignorar que o cara funda um jeito diferente de abordar o épico, a saga, a aventura.
Abração.

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Danielfo

02. fev, 2010

Geralmente demoro muito quando leio livros de fantasia, pq eles me fazem pensar muito em RPG. Li só o Rei do Inverno, mas já tive um noção muito boa do mundo que o autor quis passar.

Eu achei que a série Roma da HBO também vai nesta linha Bernard Cornwell, pelo realismo e o desprezo à limpeza e pureza das ações.

Sugiro ao Jagunço que escreva um post sobre mutilações corporais em D&D4. Em um dos meus jogos já fiz o guerreiro mago elfo do grupo ficar um ano sem a mão direita e neste ano q ele passou maneta foi muito interessante para mim com mestre e ele como jogador.
Danielfo postou recentemente: Ventos da Guerra: Capítulo 5

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Jagunco Reply:

@Danielfo,

Não acompanhei”Roma”, mas ouvi o mesmo tipo de referência sobre ela.
Sua sugestão me fez pensar um bocado aqui. O rascunho já está pronto… :)

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Realmente, sou fã de Cornwell e tudo que você disse trago pra mim. Depois de ler todos seus livros, batalhas de filmes e até de alguns romances de outros escritores pararam de fazer sentido.

E o melhor, gostei tanto dos palavrões usados no livro que os utilizo…huahuahauha…..principalmente “Cagalhão”! esse uso diariamente!

Um abraço

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Jagunço Reply:

@Julioz “Batazar” Oliveira,

Salve, Julioz.

Menção honrosa para o vocabulário dos arqueiros na trilogia do Graal! XD

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